História da Edu&Kate's

Atualizado: 31 de mar.


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A Edu&Kate’s surgiu devido a uma necessidade sentida há muito tempo, quando o Pedro, o meu filho atualmente com 25 anos, tinha apenas 3 anos de idade. Desta necessidade, surgiu uma ideia que passou a ser um objetivo. Em equipa esse objetivo foi finalmente alcançado. Mas o caminho até lá chegar nem sempre foi fácil e eu vou tentar contar-vos um bocadinho desse percurso.


A 9 de maio de 1994 nasceu uma criança que transformou a vida dos seus pais. Com ele nasceu também a ansiedade, a incerteza, mas sobretudo a dúvida. É certo que ninguém consegue prever o futuro, mas a maioria tenta traçá-lo de forma a que a sua vida seja conforme idealizaram. Não sabemos o que o Pedro deseja para o seu presente, e muito menos para o seu futuro, mas cabe a nós, pais, tentar adivinhar.


Desde cedo que percecionámos que algo não estava bem, que existia algo de diferente no Pedro em relação às outras crianças da sua idade, sobretudo comparativamente ao seu primo, dois meses mais novo. Ambos viviam praticamente juntos, eram vizinhos e foram criados pela mesma avó. O primeiro sinal de alerta evidenciou-se na fala, uma vez que apesar de ter dito algumas palavras antes do primeiro ano de idade, rapidamente as “esqueceu”, deixando de as pronunciar. E, assim, surgiu a primeira dúvida, será que o Pedro ouve mal? Começou, então, a correria para os médicos, psicólogos, psiquiatras de desenvolvimento e outros mais. Fizemos os despistes auditivos, que nada revelaram de errado. Recordo-me, então, do dia da consulta de rotina dos 24 meses no médico de família. O Pedro estava sentado no meu colo e o médico de pé atrás das minhas costas, e, de repente, surgiu um barulho estranho. O médico tinha um brinquedo nas mãos e tentou, com o ruído do mesmo, cativar a atenção do Pedro, contudo não obteve qualquer reação por parte da criança. Estranhei esta reação, e, apesar dos resultados dos exames realizados anteriormente o negarem, não consegui evitar e questionei novamente será que o Pedro ouve mal? O médico, nessa altura, já sabia o diagnóstico, mas optou por não o comunicar até ter a certeza absoluta. Então, redigiu uma carta, colocou-a num envelope fechado e encaminhou-nos para uma consulta de desenvolvimento no Hospital de São João, devendo a carta ser entregue à médica que nos atendesse. Com isto aumentou a angústia, afinal, o que se passa com o Pedro?


Infelizmente o sistema nacional de saúde em Portugal já nessa altura não funcionava da melhor forma e os tempos de espera eram longos. A consulta, que aconteceu meio ano depois do encaminhamento, resultou na marcação de um rastreio auditivo, de forma a confirmar se o Pedro realmente ouvia bem. Entretanto chegou a consulta de rotina dos trinta e seis meses no médico de família e este ficou bastante insatisfeito com o estado do processo, já que tinha passado um ano desde o encaminhamento e permanecia tudo praticamente igual. Tentou agilizar de outra forma, marcando ele mesmo uma nova consulta no centro de saúde para o mês seguinte.

Nessa consulta fomos apresentados a uma pedopsiquiatra que nos fez várias perguntas enquanto consultou o Pedro. No fim, informou-nos que tinha marcado nova consulta para o mês seguinte no Hospital São João. Chegado o dia da consulta, e depois de várias horas de espera já com o Pedro bastante agitado, entrámos no consultório e foi aí que finalmente nos divulgaram o diagnóstico, o Pedro tinha autismo! Na altura não sabíamos o que era, mas tivemos receio de perguntar e, então, viemos embora a pensar que fosse algo relacionado com a audição.

Vieram mais e mais consultas, de psiquiatria, de desenvolvimento e outras mais, bem como inúmeros exames. Mas os resultados revelavam-se sempre bastante inconclusivos. Os exames não detetaram nada de relevante com o Pedro. Afinal, na altura, tal como hoje, não se sabia o que provoca o autismo.


Com o diagnóstico, surgiu a necessidade de o Pedro ser acompanhado clinicamente em terapia da fala e psicologia. Iniciou-se, então, a intervenção semanalmente numa clínica perto de casa.


A terapia da fala não se mostrou muito produtiva, mas na área da psicologia o cenário foi bem diferente. A psicóloga revelou-se bastante dinâmica e interessada em ajudar o Pedro. Apesar de tudo nas primeiras sessões não foi fácil criar uma relação com o Pedro e foi sugerido que as consultas seguintes fossem em nossa casa, por ser um ambiente de confiança. Posto isto, preparámos um quarto só para estas sessões, no entanto, apesar de termos o espaço não dispúnhamos do material didático e terapêutico necessário.


O modelo de intervenção utilizado por esta técnica era o TEACCH, muito usual nos Estados Unidos e com bons prognósticos, pelo que nos foi apresentada uma grande pasta que explicava o funcionamento deste método e os materiais que eram necessários para o aplicar. Queríamos adquirir o material de apoio o quanto antes, mas a oferta em Portugal era escassa e bastante dispendiosa.

Acabámos por tentar construir o material, principalmente a minha esposa que tinha gosto por trabalhos manuais, contudo alguns materiais precisaram de ser fabricados com o apoio de máquinas, o que nos levou a recorrer à ajuda de alguns amigos. Foi a partir desta necessidade que nasceu a ideia de nos fabricarmos material de apoio para terapias, contudo, na altura, não detínhamos os meios.

Três anos mais tarde tivemos de trocar de psicóloga e insistiu-se para que o Pedro começasse a escrever, mas sem sucesso. Considerou-se a possibilidade de a sua motricidade fina estar comprometida e tentou-se colmatar esta dificuldade, com um adaptador no lápis. Porém, para o sucesso era preciso treino, não só nas terapias, como em casa e na escola, mas, mais uma vez, devido à acessibilidade deste tipo de materiais, acabamos por ter de encomendar de Espanha, demorando algumas semanas.


Os anos foram passando, fomos tentando ultrapassar as dificuldades da melhor forma possível, no entanto, com a chegada dos catorze anos do Pedro surgiu uma nova dúvida: O que acontecerá ao Pedro quando sair da escola? Apesar de frequentar um colégio de ensino especial, sabíamos que não ia poder permanecer lá para sempre e, por isso, fomos procurando alternativas. Desde muito cedo que o Pedro demonstrou interesse e habilidade para os trabalhos manuais, passando muito tempo a observar e a auxiliar a mãe em tarefas como preparar os legumes para a sopa e lavar a louça ou mesmo esculpir flores em sabonetes. Como por esta altura já tinha fundado a minha empresa, procurei juntos dos nossos clientes trabalhos de montagem que o Pedro pudesse realizar, acabando por surgir um fabricante de material doméstico em plástico que necessitava de apoio na embalagem dos produtos. Aproveitei a oportunidade e levei algum deste serviço para o Pedro. O trabalho consistia em montar pequenas peças tipo tupperwares e colocar os respetivos rótulos, e o

Pedro gostava tanto da tarefa que era difícil fazer com que parasse até para ir dormir!


Daí, surgiu a oportunidade de criarmos uma linha de montagem/embalagem, na qual o Pedro estivesse incluído, de peças feitas na minha empresa. Consultámos algumas entidades, uma das quais o Centro de Emprego da Maia para nos auxiliar com a empregabilidade de pessoas com deficiência. Assim, a cinco de maio de 2014, o Pedro iniciou um Estágio de Inserção e a três de junho de 2015 assinou o seu primeiro contrato de trabalho.


O Centro de emprego também auxiliou a alargar o nosso projeto de inclusão a outras pessoas e assim nasce o projeto AEGIDIUS (batizado em homenagem ao Santo Egídio, padroeiro das pessoas com deficiência), que consistia em incluir pessoas com e sem deficiência numa linha de montagem e/ou embalagem de pequenas peças.


Tentamos manter esta linha de produção o máximo de tempo possível, mas, infelizmente, financeiramente não se mostrou viável, pois a maioria dos nossos clientes apesar de sensíveis ao projeto, nem sempre nos podiam garantir trabalho, o que resultou numa redução da equipa e numa interrupção do projeto.

Contudo, a necessidade de manter o posto de trabalho do Pedro manteve-se e era necessário criar um complemento ao trabalho desenvolvido para terceiros, assim surgiu a ideia de produzirmos internamente um produto próprio relacionado com o ensino especial, não só para garantir os postos de trabalho, mas também o acesso a este tipo de produtos. Assim nasceu a Edu&Kate’s, dedicada á produção e venda de ferramentas educacionais.